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Geleira do juízo final na Antártida pode elevar o mar em até 3 cm até 2100, diz estudo

Geleira do juízo final na Antártida pode elevar o mar em até 3 cm até 2100, diz estudo
Imagem ilustrativa

Pesquisa na Nature Communications, com modelo da UC Irvine, aponta que água oceânica sob o gelo pode dobrar projeções de referência — sem incluir aquecimento climático adicional.

Foto: K (Pexels)

O derretimento da geleira Thwaites, na Antártida Ocidental — apelidada de “geleira do juízo final” — pode elevar o nível médio global do mar em até 3 centímetros até 2100, segundo estudo publicado na revista científica Nature Communications. A projeção supera em cerca de metade as estimativas médias de modelos internacionais usados como referência pelos autores e destaca um mecanismo ainda pouco capturado nas simulações: a infiltração de água oceânica relativamente quente por quilômetros sob o gelo.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Irvine, desenvolveram um modelo computacional que representa essa dinâmica e compararam os resultados com observações feitas entre 1996 e 2023. As simulações reproduziram com mais precisão mudanças na espessura, na velocidade e na posição da geleira. O trabalho foi divulgado neste domingo, 18 de outubro de 2026, em reportagem do portal Exame sobre a pesquisa.

Um ponto central do estudo é que os cálculos mantiveram as condições climáticas médias das últimas três décadas, sem incorporar aquecimento adicional do planeta até o fim do século. Os autores tratam os números, portanto, como estimativa de limite inferior sob o cenário analisado — e não como retrato do impacto total possível da Thwaites no nível dos oceanos.

O que aconteceu

A Thwaites é monitorada de perto porque a perda de gelo na região tem potencial para contribuir para a elevação dos oceanos, embora persistam incertezas sobre a velocidade do recuo e o volume que pode ser perdido nas próximas décadas. Desde meados da década de 1990, a porção ocidental da geleira, onde o deslocamento é mais rápido, recuou cerca de 25 quilômetros — movimento em parte atribuído ao contato da base do gelo com a água do mar.

Os modelos tradicionais costumam tratar a zona de aterramento — onde o gelo deixa de estar apoiado no fundo e passa a flutuar — como uma fronteira estreita. Observações por satélite, porém, indicam que essa transição pode se estender por vários quilômetros, permitindo que água quente avance sob o manto de gelo e provoque derretimento em área maior do que parte das simulações anteriores considerava. “Observações por satélite demonstram a existência de uma ‘zona de aterramento’, que às vezes tem vários quilômetros de largura, onde a água quente do oceano alcança regiões profundas sob os mantos de gelo e provoca um derretimento intenso”, disse Mattia Poinelli, principal autor do estudo e pesquisador da UC Irvine, em comunicado citado pelo Exame.

Ao incluir zonas de aterramento de extensões variadas, a equipe concluiu que representar a infiltração foi decisivo para reproduzir o comportamento observado na Thwaites ao longo de quase 30 anos. Conforme a largura simulada da zona, a contribuição estimada da geleira para o nível do mar até 2100 variou: sem representação da zona, 8,3 milímetros; com cerca de 1 km, 1,43 cm; com cerca de 3 km, 1,94 cm; e com cerca de 5 km, 3,01 cm (incerteza de 5,7 mm). Esse último valor equivale a praticamente o dobro da média de 1,52 cm obtida pelo conjunto de modelos internacionais de referência no estudo.

Além do derretimento acelerado, a entrada de água pode afetar a estabilidade de uma elevação submarina chamada Crista Mouginot, que sustenta parte do gelo e limita o deslocamento. Com o avanço do derretimento, a Thwaites pode perder contato com essa estrutura e recuar em direção à Crista Sul. Em simulações com zonas de aterramento entre quatro e seis quilômetros — dimensão compatível com observações recentes — a probabilidade de desprendimento da Crista Mouginot chegou a cerca de 60% até 2100; nesse conjunto de cenários, a perda do ponto de apoio poderia ocorrer já em 2038, embora a data não seja tratada como previsão definitiva.

“Há décadas documentamos e quantificamos os impactos das mudanças climáticas sobre os mantos de gelo sensíveis do nosso planeta, mas a percepção crescente, nos últimos anos, do que está acontecendo na parte inferior de geleiras como a Thwaites está provocando uma sensação ainda maior de preocupação”, afirmou Eric Rignot, coautor e professor de Ciências do Sistema Terrestre na UC Irvine. Os pesquisadores reconhecem limitações: o modelo não inclui mudanças na frente de gelo por desprendimento de grandes blocos, simplifica a circulação sob a plataforma de gelo e manteve fixa a largura da zona de aterramento, que pode variar com topografia, marés e pressão da água.

Impacto na prática

Para economias costeiras e infraestrutura portuária em escala global, cada centímetro adicional no nível médio do mar pode, em tese, amplificar riscos de inundação, erosão e salinização de águas em regiões já expostas — sobretudo se a contribuição da Thwaites se somar a outras fontes de elevação não contempladas neste estudo. Como o trabalho isola o efeito do derretimento na zona de aterramento sem projetar aquecimento futuro, países que dependem de projeções oficiais de nível do mar podem, em hipótese, precisar revisar premissas caso modelos internacionais passem a incorporar melhor a infiltração oceânica sob geleiras da Antártida Ocidental.

O timing de um eventual desprendimento da Crista Mouginot — citado em alguns cenários para 2038, com probabilidade de cerca de 60% até 2100 nas simulações mais alinhadas às observações — pode, segundo os autores, influenciar a velocidade do recuo e a quantidade de gelo perdida, com reflexos indiretos em seguros, avaliação de ativos imobiliários à beira-mar e planejamento de defesas costeiras em nações vulneráveis. Nenhum desses efeitos está quantificado no artigo científico em si; são leituras possíveis a partir da escala geográfica do fenômeno e da literatura sobre elevação oceânica.

Os cientistas defendem novas medições diretas de temperatura, salinidade e circulação sob o gelo para reduzir incertezas — dado que os resultados atuais não devem ser lidos como previsão fechada do comportamento da Thwaites até 2100. Se confirmações em campo alinharem as simulações aos cenários de zona de aterramento mais ampla, a percepção de risco climático de longo prazo em mercados e políticas públicas internacionais pode ganhar novo fôlego, ainda que o estudo aponte apenas um piso de impacto sob condições climáticas já conhecidas.

Fontes: Exame

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