IA pode pesar mais no emprego feminino, e o caso das telefonistas nos EUA ilustra o risco

IA pode pesar mais no emprego feminino, e o caso das telefonistas nos EUA ilustra o risco
Imagem ilustrativa

A CNBC cruza história da automação — de centrais telefônicas a PCs — com dados da OIT e estudos de economistas para mostrar por que mulheres podem ser mais afetadas pela expansão da inteligência artificial.

Foto: Th2city Santana (Pexels)

A história das revoluções tecnológicas nos Estados Unidos indica que, à medida que a inteligência artificial se espalha, o impacto no mercado de trabalho pode recair com mais força sobre as mulheres do que sobre os homens. A conclusão está em reportagem da CNBC publicada nesta segunda-feira (19), de Steve Liesman, que usa o fim das telefonistas de central, as máquinas de lavar e os computadores pessoais para iluminar o debate sobre emprego e IA.

Antes de assistentes de voz ou chatbots, quase sempre uma mulher operava os interruptores das ligações de longa distância — em certo momento, o maior ofício entre mulheres brancas nascidas nos EUA com menos de 20 anos. Hoje, a função praticamente não existe. Em março, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) concluiu que quase uma em cada dez mulheres em países de alta renda trabalha em ocupações de maior risco diante da IA. Ariane Hegewisch, do Institute for Women's Policy Research, disse à CNBC que a IA mira tarefas rotineiras e padrões, típicas do trabalho administrativo feminino, e que cerca de 90% dos secretários e trabalhadores de escritório ainda são mulheres.

O que aconteceu

Na década de 1940, cerca de 95% das telefonistas nos EUA eram mulheres. O interruptor automatizado da AT&T — comparado na matéria a um dos maiores investimentos em automação da história — gerou um choque tecnológico sem precedentes; nas décadas seguintes, estimam-se 75 mil postos de operadora extintos. James Feigenbaum (Boston University) e Daniel P. Gross (Duke) analisaram censos e folhas de pagamento ao longo da instalação das centrais e concluíram, em 2020, que muitas operadoras perderam emprego e carreira, indo para funções menos pagas ou saindo do mercado. David Autor, citado na reportagem, observa que, quando a ocupação principal some, o passo seguinte costuma ser pior.

As gerações mais jovens, porém, se adaptaram melhor: novas trabalhadoras migraram para outros setores com empregos de qualidade semelhante, e a “ansiedade sobre as oportunidades das gerações futuras provou estar um tanto equivocada”, segundo os economistas. Máquinas de lavar e outros eletrodomésticos, chamados “motores de libertação” em estudo clássico, liberaram tempo doméstico; entre 1950 e 1980 o número de mulheres empregadas nos EUA cresceu mais de 25 milhões e a participação feminina na força de trabalho passou de 34% para 52%. O PC repetiu parte do padrão: no censo de 1980, quase 4,7 milhões de americanos eram secretários, estenógrafos ou datilógrafos, mais de 98% mulheres; com o IBM PC (1981) e o Microsoft Word, executivos assumiram tarefas antes feitas por escritório, embora muitas mulheres tenham se requalificado com planilhas e bancos de dados.

Impacto na prática

Para quem hoje ocupa funções administrativas em países de alta renda, a IA pode, em tese, ampliar a exposição à substituição de tarefas — sobretudo onde a OIT já aponta risco elevado. A CNBC sugere que incumbentes podem sofrer mais no curto prazo do que quem entra no mercado com flexibilidade ocupacional, como após a automação das centrais.

Em escala nacional, o histórico americano indica que choques tecnológicos não encerram oportunidades para sempre: entre 1940 e 1980 surgiram milhões de postos de escritório acessíveis a quem tinha ensino médio, enquanto crescia a demanda por serviços pagos. Autor ressalta que parte desse ajuste dependeu de expansão econômica, não só de inovação. Um estudo de 2022 de Marcus Dillender e Eliza Forsythe associou software administrativo a queda de cerca de 1% no emprego do setor e a alta de cerca de 3% nos salários de graduados universitários. Mais mulheres hoje têm diploma e gestão do que nas ondas anteriores, o que pode, em hipótese, oferecer alguma proteção — embora a IA prometa subir na cadeia do trabalho humano. Hegewisch acrescenta que “a IA pode aprender”, deixando o cenário em aberto.

Se o paralelo histórico se repetir em parte, países ricos podem enfrentar anos de realocação em que trabalhadoras de rotina sentiriam primeiro a pressão, enquanto novas ocupações — ainda incertas — surgissem com atraso, sem garantia de o mesmo ritmo de criação de empregos da segunda metade do século XX nos Estados Unidos.

Fontes: CNBC — Women may be at greater risk of AI job losses. Telephone switch operators and PCs show why.

Leia mais em: mundodosnegocio.com.br