Placas de vídeo, RAM e SSD ficam mais caras no Brasil com a corrida global por memória de IA

A consultoria TrendForce registrou altas recordes nos contratos de DRAM e NAND no 1º trimestre de 2026; no país, câmbio e tributos amplificam o efeito nas prateleiras.
Foto: Brett Sayles (Pexels)
A disputa internacional por chips para data centers de inteligência artificial está encarecendo placas de vídeo, pentes de RAM, SSDs, notebooks e consoles no Brasil em 2026. Segundo reportagem publicada nesta segunda-feira (19), a escassez global de memória é o principal motor da alta; no mercado doméstico, a cotação do dólar e a tributação sobre eletrônicos tendem a ampliar o choque de preços vindos do exterior.
Os preços contratuais da memória DRAM — a mesma usada na RAM de computadores — subiram entre 90% e 95% apenas no primeiro trimestre de 2026, de acordo com a consultoria TrendForce. A memória NAND, empregada em SSDs e videogames, avançou entre 55% e 60% no mesmo intervalo. A empresa classificou os movimentos como as maiores altas trimestrais já registradas em sua série; o repasse chegou às lojas brasileiras em categorias que vão da placa gráfica ao console.
A origem do aperto está na corrida das grandes empresas de tecnologia por servidores de IA. No Brasil, mudanças pontuais no imposto de importação em fevereiro de 2026 geraram ruído para importadores, mas a matéria aponta que o fator dominante permanece a falta de memória no mercado mundial.
O que aconteceu
Três elementos compõem o preço final do hardware no país: escassez mundial de chips de memória, câmbio e carga tributária. A TrendForce e o relato da Exame indicam que o primeiro pesa mais e explica por que a alta se espalhou do pente de RAM ao console. Data centers de IA consomem volumes elevados de DRAM, de memória de alta largura de banda (HBM) e de armazenamento em SSD; como esses segmentos oferecem margens maiores, fabricantes como Samsung, SK hynix e Micron passaram a direcionar linhas de produção para eles, reduzindo a capacidade disponível para PCs e celulares.
Servidores de IA e equipamentos domésticos disputam o mesmo tipo de chip. Grandes empresas de tecnologia fecham contratos de longo prazo e pagam prêmios pelo fornecimento, enquanto montadoras de PCs ficam com o que resta. Em fevereiro de 2026, a TrendForce já apontava falta simultânea de DRAM para provedores de nuvem, fabricantes de servidores e marcas de computador. Parte das fábricas de NAND migrou produção para DRAM, mais lucrativa, o que apertou a oferta de SSDs. Os percentuais citados referem-se a contratos entre fabricantes e grandes compradores; o preço na prateleira não replica a mesma magnitude, mas segue a mesma direção.
Placas de vídeo dependem de memória gráfica GDDR6 ou GDDR7, sujeita ao mesmo estresse. Fornecedores vêm reduzindo a produção de GDDR6 e saindo do segmento, enquanto a GDDR7 tem oferta limitada porque fábricas avançadas priorizam memória para servidores. Mesmo quando o preço da GPU se mantém estável, montar um PC completo ficou mais caro porque RAM e SSD subiram. Consoles, que usam RAM e NAND, podem reagir com reajuste de preço ou versões com menos armazenamento diante do custo de produção maior.
No campo fiscal, em 4 de fevereiro de 2026 o Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) publicou a Resolução nº 852, elevando o imposto de importação de mais de mil itens de capital e de informática e telecomunicações, com alíquotas em faixas de até 20%, incluindo placas de vídeo, processadores, memórias e placas-mãe. Em 27 de fevereiro, a Resolução Gecex nº 866 reduziu as alíquotas de 15 produtos de tecnologia afetados; placas de vídeo, processadores e placas-mãe voltaram às alíquotas anteriores, enquanto o restante da lista manteve o aumento. A reportagem destaca que esse vaivém gerou incerteza para importadores, mas não explica por si só a alta das GPUs.
Para o segundo semestre de 2026, a TrendForce projetou reajustes adicionais de 13% a 18% na DRAM e de 10% a 15% na NAND no terceiro trimestre, e de 10% a 15% na DRAM e de 15% a 20% na NAND no quarto. A desaceleração das altas não viria de mais oferta, e sim de um teto no repasse porque fabricantes de PCs e celulares já não conseguem transferir integralmente os custos ao consumidor. A consultoria também projeta que a fatia de produção voltada à memória de PCs pode encolher em 2027 à medida que mais capacidade migra para servidores.
Impacto na prática
Para quem compra ou renova equipamentos no Brasil, o cenário descrito pode significar preços mais altos e prazos menos previsíveis em categorias sensíveis ao dólar — placas de vídeo, memórias e consoles são cotados em moeda americana no mercado internacional, e variações cambiais podem acrescentar centenas de reais em itens de valor elevado antes de frete e impostos. No caso dos videogames, a matéria lembra que o produto passa por Imposto de Importação, IPI, PIS/Cofins e ICMS em cascata; reduções de IPI concedidas aos consoles entre 2019 e 2022 aliviaram parte da conta, mas não isolam o consumidor de oscilações cambiais nem da alta dos componentes.
Em escala mais ampla, a pressão sobre a cadeia de hardware pode, em tese, refletir custos maiores para empresas que dependem de infraestrutura de TI e para o setor de jogos e entretenimento digital, caso os reajustes se prolonguem. A própria TrendForce sugere que a competição entre big techs e o mercado de PCs e smartphones pode manter o mercado tenso até que a alocação de fábricas se reorganize — hipótese que, se confirmada, prolongaria o ambiente de preços firmes também em economias importadoras de eletrônicos, incluindo o Brasil.
As projeções da TrendForce para altas menores no segundo semestre de 2026 indicam desaceleração, não queda imediata nos preços. Se a migração de capacidade para servidores de IA se intensificar em 2027, como aponta a consultoria, o abastecimento de memória voltada ao usuário final pode permanecer restrito e manter o hardware doméstico em patamar elevado por mais tempo.
Fontes: Exame — Placa de vídeo, RAM e SSD mais caros: entenda o impacto da IA nos preços do Brasil (19/10/2026).
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