USP cria comissão para formar advogados sem perda cognitiva com o uso da IA

Faculdade de Direito da USP organiza seminários após pesquisas apontarem débito cognitivo; escolas nos EUA reformam currículos e restringem tecnologia no primeiro ano.
Foto: Rafael Rodrigues (Pexels)
A Faculdade de Direito da USP, instituição com quase dois séculos de história, instalou uma comissão para definir o que significa ensinar direito diante do avanço da inteligência artificial. O movimento ganhou destaque neste domingo, 18 de outubro de 2026, em coluna publicada na Folha pelo advogado Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.
Segundo o texto, um esforço parecido deveria ocorrer em qualquer instituição de ensino, porque a tecnologia pode alterar de forma ampla a formação jurídica. Lemos relatou ter feito a apresentação inaugural de uma série de seminários promovida pela comissão e destacou um paradoxo entre o entusiasmo e o receio dos estudantes.
Em pesquisa realizada nos Estados Unidos em abril deste ano com alunos de direito, 72% consideraram o letramento em IA uma competência essencial, enquanto 74% temem que depender da ferramenta prejudique a própria formação. Para o autor da coluna, o medo de “emburrecer” seria coerente com evidências recentes sobre o uso da tecnologia na escrita e na avaliação escolar.
O que aconteceu
Um estudo do MIT (Massachusetts Institute of Technology) citado na coluna indica que quem escreve com IA apresenta atividade cerebral 54% menor e, no dia seguinte, muitas vezes não consegue citar uma frase do texto que teria produzido. O fenômeno é descrito como débito cognitivo: a pessoa atribui a si o texto gerado pela máquina, mas não domina o conteúdo.
Lemos também menciona pesquisa recente na China em que as notas dos deveres de casa sobem enquanto as das provas caem — padrão compatível, na análise do colunista, com o uso de IA nas tarefas fora de sala e a dificuldade em provas sem auxílio.
Diante disso, algumas escolas de direito nos EUA adotaram medidas restritivas no primeiro ano. A Escola de Direito da Universidade de Chicago proibiu IA nas disciplinas centrais do primeiro ano, além de laptops e celulares em sala, retomou provas presenciais sem internet e reforçou a participação com método socrático de perguntas e respostas. A ideia seria proteger o aluno da tentação de delegar o raciocínio jurídico à tecnologia — medida que o autor considera especialmente pertinente no Brasil, onde muitos ingressam na graduação com 18 anos.
A coluna descreve três pilares para a formação: pensar com, sem e sobre a IA. Haveria espaços protegidos da tecnologia, ambientes em que o uso seria obrigatório e ainda disciplinas sobre o funcionamento, capacidades e limites dos sistemas. A Universidade de Chicago passou a exigir defesa oral presencial dos trabalhos; na NYU (New York University), há provas orais conduzidas por agente de voz com critérios definidos pelos professores.
No panorama americano apresentado por Lemos, 55% das escolas de direito já oferecem disciplinas de IA, 83% usam a ferramenta nas clínicas jurídicas e 85% planejam reformar o currículo por causa da tecnologia. Para o colunista, a universidade pode ser o último ambiente em que decisões jurídicas ainda sejam lidas ou escritas integralmente sem IA — o que transformaria esse espaço em vantagem competitiva na formação.
Impacto na prática
Se as tendências descritas na coluna se consolidarem, a formação jurídica em universidades de referência pode passar a combinar zonas sem tecnologia no início do curso com exigência crescente de competência em IA nas etapas avançadas e na prática simulada. Em hipótese, isso pode afetar o mercado de trabalho jurídico ao separar profissionais que dominam o conteúdo produzido com ou sem máquinas daqueles que apenas entregam textos gerados por sistemas.
Os números sobre escolas americanas reformando currículos sugerem que instituições fora dos EUA — incluindo a comissão da USP — podem enfrentar pressão para atualizar programas sem abrir mão da avaliação presencial e oral. Casos como o da China, com divergência entre notas de casa e de prova, podem, em tese, levar reguladores e mantenedoras de ensino superior a revisar políticas de integridade acadêmica e métodos de prova em vários países.
Para o autor da coluna, ficar parado não seria opção: proteger a atuação dos futuros advogados e integrar a IA à formação aparecem como metas simultâneas, com o risco cognitivo como contraponto central do debate inaugurado pelos seminários em São Paulo.
Fontes: Folha de S.Paulo — Ronaldo Lemos, 18/10/2026
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